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Wednesday, April 30, 2008

PINGA FOGO: TAPA NA CARA E TRAVESTIS


A semana está agitada... Vários episódios grotescos marcaram a região, o país e o mundo.
E como o que se pretende aqui é “expressar” opiniões, vou fazer um “Pinga Fogo” sobre os fatos que mais me chamaram a atenção, refletindo a situação regional e nacional, entremeados por alguns comentários sobre os acontecimentos, as causas e conseqüências dos mesmos. Sobre postura, talento, oportunidade e também a respeito de questões mais íntimas, interpostas aos casos:

Regionalmente – Varginha-MG: “Prefeito dá tapa na cara de Presidente da Câmara, que revida com garrafada”.
Hilário, se não fosse funesto. Não vamos entrar no mérito da questão. Os fatos não foram apurados e sequer sabemos quem é o “dono da verdade”, mas que é uma baixaria de primeira, ah, isto é! Homens públicos, representantes do povo, que deveriam servir de exemplo para a conduta...
Se o vereador atingiu a primeira dama com ofensas de cunho particular, se o prefeito tem diferenças pessoais com o edil, que a roupa suja seja lavada em casa, ou na discrição dos gabinetes. Mas em público? Numa festa? Este não é o espaço adequado. Por favor, senhores...
Jamais escondi minha simpatia pelos feitos da atual administração municipal varginhense, mesmo sendo contrário a algumas posturas do executivo. Jamais neguei a competência de poucos vereadores, mesmo discordando de algumas de suas posições e oposições. Porém, nunca deixarei de repudiar atitudes descabidas, inépcia administrativa ou legislativa... E, depois, querem criticar a população, sem renda, sem educação formal, sem perspectivas, à mercê da bandidagem...
Não é este o tipo de exemplo que esperamos. Não é este tipo de governo que nosso povo merece. Não podemos ser reféns da dengue, de infanticidas, de traficantes, de corruptos, de madeireiros inescrupulosos e de atravessadores de alimentos, enquanto nossos tutores digladiam-se em questiúnculas...

Nacionalmente – Rio de Janeiro-RJ: “Ronaldo ‘Fenômeno’ faz farra com travestis”.
A masculinidade latina, representada por um de seus grandes ídolos, o “comedor” Ronaldo, eleito o melhor jogador do mundo, envolvido com três travestis, é mais uma vez colocada à prova... O ídolo agiu por engano? Achando que eram mulheres com vagina, útero e menstruação? Faça-me o favor! A imprensa divulga que os travestis foram aliciados em uma conhecida rua de prostituição carioca onde, notadamente, estes profissionais do sexo fazem ponto. Qualquer criança de 12 anos notaria que se tratava de “mulheres genéricas”.
Cabe aqui uma definição, que ilustra bem o caso:
Fenômeno: Do Lat. phaenomenon; s. m.; toda a modificação operada nos corpos por agentes físicos ou químicos; tudo o que é percebido pelos sentidos ou pela consciência; Filos., o que parece ser, tal como realmente se manifesta, mas que pode ser qualquer coisa diferente e até oposta; coisa rara e surpreendente (Dicionário da Língua Portuguesa On Line).
Ronaldinho, como já foi conhecido, procurava por sexo “fenomenal”, (adj. 2 gên., que tem o carácter de fenômeno; espantoso; enorme; surpreendente; assombroso; extraordinário, como bem define o mesmo dicionário). E vamos combinar: Ele poderia ter milhares de mulheres sob seus talentosos pés.
Os travestis agiram de má fé? Pode ser. Mas Ronaldo agiu na melhor e mais pura fé? Improvável.
Há bons e maus jogadores, há bons e maus políticos, há bons e maus travestis. Tudo é uma questão de talento aliado à oportunidade:
Um jogador talentoso, que tenha a oportunidade de mostrar o que sabe fazer, pode se tornar uma estrela, um ídolo. Sua conduta poderá levá-lo à Unesco, mas seus deslizes poderão rebaixá-lo ao limbo.
Sem falso pudor ou moralismo: Cada um transa com quem bem entender, da forma que melhor lhe aprouver. Mas a exploração de serviços sexuais por dinheiro é deplorável. No mínimo, questionável. Falta de competência ou de coragem para vôos mais evidentes... Opção de quem busca dissimular desejos que não podem ser realizados às claras, sob as luzes da sociedade taxativa em que vivemos.
Um político pode chegar à câmara municipal, à prefeitura, aos legislativos estaduais ou federais ou à presidência da república, tudo depende da competência, da habilidade e das oportunidades... A regra diz que, infelizmente, nem sempre honestidade, ética ou postura democrática são pré-requisitos para alçar tais posições, o que também é deplorável.
Um travesti, independente de sua condição sexual, poderia chegar a patamares profissionais mais ortodoxos. Mas neste caso, o agravante é a latente falta de oportunidade. Excluídos da escola, dos ambientes sociais e do mercado de trabalho, muito poucos têm a chance de escapar da marginalidade, dos trevos, da prostituição. Há exceções? Claro que sim! Podemos citar alguns poucos casos, ainda que alijados a setores mais permissivos, como a moda, a televisão e a estética, mas fora isto, onde mais existem exemplos?
Este “Pinga Fogo”, pretende trazer à baila uma discussão mais profunda, com o perdão e a exemplo de Ronaldinho, que talvez também quisesse algo desse quilate, em outras circunstâncias...

CONTOS QUE ME CONTARAM




Há algum tempo, resolvi enveredar por um delicioso caminho. O caminho das letras. Como digo em meu blog EXPRESSÃO, que não por acaso leva o mesmo nome da coluna, “escrever é uma arte, um vício”...

Ando um pouco ausente em meus artigos de opinião. O que não significa que deixei de pensar. Aliás, meu último artigo nesta linha, sob o título “Quem é o animal aqui?”, publicado no dia 21/02/2008, ainda gera fortes emoções, com acalorada discussão dos leitores.

Mas esta lenga lenga toda tem um motivo. Nos últimos meses, tenho me dedicado a um projeto antigo: Meu livro de contos. Há vários anos venho escrevendo histórias do cotidiano, causos que ouvi de amigos e que, resolvi, merecem ser divulgados, pela simplicidade dos fatos ou por fazerem parte da vida como ela é!

Depois de muito tempo tomando coragem, vou tornar público o primeiro conto que escrevi. Uma história acontecida com um grande amigo que, de uma forma muito divertida, me contou o “causo”...

Esta semana, gostaria de ouvir você, leitor da Coluna Expressão, que me acompanha neste caminho. Quero saber sua impressão sobre a qualidade do conto, sobre a maneira como escrevo e transmito os acontecimentos. O que está em julgamento, não é a história real – deixemos bem claro – , mas sim o meu futuro como escritor. Se você conseguir enxergar as cenas através dos meus olhos, me dou por contente!

Devo continuar? Com a palavra, o juiz: - Você!


VIDA DE ARTISTA

“Que sorte têm os atores! Cabe a eles escolher se querem participar de uma tragédia ou de uma comédia, se querem sofrer ou se regozijar, rir ou derramar lágrimas. Isto não acontece na vida real. Quase todos os homens e mulheres são forçados a desempenhar papéis para os quais não têm a menor propensão. O mundo é um palco, mas os papéis foram mal distribuídos.” - Oscar Wilde

De cidade em cidade, Marcelo percorria a região, levando na bagagem a cultura que aprendera com a vida. Depois de anos trabalhando como balconista, jardineiro e faxineiro, agora se tornara um artista; com diploma do cursinho de teatro, e tudo!
De ônibus, de carona, ou empoleirado em “caminhões leiteiros”, não havia distância ou falta de dinheiro que o impedisse de chegar ao seu destino.
Apresentando um monólogo, sobre uma famosa personagem da Inconfidência Mineira, o figurino cabia em uma mala: Peruca, maquiagem, uma blusa estampada, de babado, uma saia preta, comprida e um xale de lã. O cenário, precariamente montado em quadras esportivas, pátios de escolas ou salões paroquiais, contava sempre com a colaboração dos moradores da cidade onde estivesse. Algumas cadeiras, uma mesinha, um jogo de chá e um vestido. Pronto! Estava montado o espetáculo...
Contando sempre com os miúdos recursos das prefeituras de interior, cada viagem era sempre uma surpresa.
Em uma delas, levando a peça a uma cidadezinha próxima a Poços de Caldas, chega o momento tão esperado, divulgado há dias pelos auto-falantes da matriz, que em muitos lugarejos ainda têm a “função de rádio”, informando à população sobre batizados, casamentos, funerais e eventos importantes, como a apresentação teatral que aconteceria naquela noite, no pátio da escola estadual.
O povo estava agitado. Trajando roupa de ir à missa, aos poucos as pessoas iam lotando a escola. Enquanto isto, na sala dos professores, o artista se preparava para encarnar sua personagem, quando entra na sala o prefeito, ressabiado, vendo um homem vestido de mulher:
- Uai? Num é firme?
- Não, Sr. Prefeito, é teatro!
- E cadê os otro?
- É um monólogo, Sr. Prefeito!
O prefeito, com cara de quem não entendeu nada e querendo encerrar a conversa, decreta:
- Ah, bão! Então se ocê já tá pronto, eu vô avisá o povo que já vai começá!
No pátio da escola, a platéia já estava impaciente, quando o prefeito grita:
- Óia gente, eu trusse um teatro proceis. Se oceis gostá, nóis traiz otra veiz!
Começa a apresentação, assistida por crianças, lavradores e velhinhas, todos muito atentos, extasiados com a história da heroína louca, conversando com os inconfidentes e com o vestido jogado sobre uma cadeira, que ela acreditava ser sua filha morta... Entre uma cena e outra, Marcelo observa o prefeito se retirar... Acabou-se a concentração do artista, àquela altura preocupado com o cheque do pagamento.
Encerrada a apresentação, sucesso total, aplausos de pé, discurso da diretora da escola. Onde estaria o prefeito com o cheque?
- Ah! O Sr. Prefeito foi pra venda do Zé!
Levado pela Kombi da prefeitura, escalada para transportar nosso artista até a rodoviária de Poços, Marcelo encontra o prefeito em um botequim. Rua de terra, paredes encardidas, duas mesas com propaganda de cerveja, uma lâmpada amarelada, pendurada por um fio engordurado, no meio do bar. O prefeito, acompanhado por alguns correligionários, jogando palitinho, fumando um cigarrinho de palha, tomando uma cachacinha nativa e “tirando-o-gosto” com uma lingüicinha de pernil, observa desdenhoso o artista que chegava:
- E aí, Sr. Prefeito? Gostou do espetáculo?
- Uai! Parece que o povo gostô, né?
- E o cheque, Sr. Prefeito?
- Uai! Ninguém te pagô? Acho que o cheque ficô aqui comigo!
Do bolso da camisa, todo amarrotado, o prefeito saca um cheque da prefeitura, já preenchido por sua filha, tesoureira do município, e “desenha” seu próprio nome.
- Confere se tá certo, que eu tô sem meus óculos!
- Tudo certo, Sr. Prefeito! Obrigado, boa noite, e até a próxima!
- Até!
Suspirando, aliviado, Marcelo acaricia o cheque enquanto a Kombi segue pelas ruelas que o levariam à estrada para Poços, pensando com seus botões:
- Difícil, esta minha vida de artista...
Pelo menos a passagem e as refeições da semana estavam garantidas!