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Wednesday, June 13, 2007

Ariano, Aneglina, pai João e pai Torres



Com a idade que chega, acho que me tornei um emotivo. Ou será que sou daqueles poucos que ainda têm a capacidade de se emocionar com o sofrimento e a conquista alheios?
Sem entrar no mérito das intenções, sem ficar imaginando que existe uma conspiração por trás de tudo o que aparece na TV, assistindo uma entrevista com o Ariano Suassuna, que completa 80 anos, fiquei emocionado. Lucidez de um nordestino que, por opção, nunca saiu do Brasil, nem para fazer turismo e consegue escrever sobre a saga dos sertanejos em sua obra. Diz ele na entrevista: “-O que é muito difícil é você vencer a injustiça secular, que dilacera o Brasil em dois países distintos: o país dos privilegiados e o país dos despossuídos. Eu digo sempre que, das três chamadas virtudes teologais, eu sou fraco na fé e fraco da caridade; só me resta a esperança. Eu sou o homem da esperança”. Chorei. Em “O Auto da Compadecida”, obra adaptada em filme, como não se emocionar com o julgamento final dos personagens, onde Suassuna descreve, com sensibilidade, a tragédia que é nascer, crescer e morrer no sertão do nordeste brasileiro? Haja lenço de papel!
Vendo alguns filmes cliché, também não consegui conter o pranto. O genocídio em Ruanda, financiado pelo FMI, surrupiando a vida de mais de 800.000 pessoas, retratado em “Hotel Ruanda”. A guerra civil em Serra Leoa, financiada pelos traficantes de diamantes, geralmente norte-americanos, onde crianças eram aliciadas, barrigas de mulheres grávidas cortadas, mãos e braços decepados. Atrocidades interpretadas no recente “Diamantes de Sangue”.
Ao receber um e-mail com aqueles anexos gigantescos, por curiosidade, abri o arquivo. Lá estava a Angelina Jolie, linda, correndo o mundo como embaixadora da boa vontade, cidadã do mundo, doando um terço de seus rendimentos para causas humanitárias, exibindo orgulhosamente sua família multi racial e cobrando dos governos atitudes e ações no combate à miséria e à violência. Lágrimas.
E, pra completar minha saga de perturbação, no último domingo, pude assistir uma matéria de 11 minutos, tratando sobre a luta e as conquistas de homossexuais no país, em complemento à notícia da Parada do Orgulho, em São Paulo, para a qual, durante dez anos, a Rede Globo virou as costas, fazendo “boca de siri”. Agora, com mais de três milhões de participantes, não dá pra fingir que o evento não existe. É a maior manifestação de cunho político não partidário do país.
A matéria cita, além da conquista da terra por um casal de lésbicas e da demanda judicial de uma transexual por reconhecimento de seus direitos junto à Força Aérea, onde atuou por vinte e dois anos, uma história que, em particular, me emocionou: Um casal de homens, juntos há mais de quinze anos e que já conviviam com os dois filhos naturais de um deles, ganhou na justiça o direito de adotar quatro crianças. Irmãos, que têm entre quatro e dez anos. Em seu depoimento, uma das crianças afirma: “-Eu já tinha perdido a esperança de ser feliz, eu e meus irmãos, mas aí apareceu o Pai João e o Pai Torres...”. E dá-lhe água salgada escorrendo dos olhos!
Mas, podem me perguntar: “-E aí? Do que adianta tanto choro e pouca vela?”
Então respondo: -Se ainda podemos exteriorizar emoções, se ainda conseguimos ficar indignados e se estas reações provocarem ações reais, estamos no caminho!
Vamos chorar! Mas aliado ao choro, vamos plantar árvores, economizar água, fazer passeatas, exigir julgamentos e cobrar punições. Vamos fazer trabalho voluntário, alfabetizar, adotar crianças, preservar direitos.
Estou deveras cansado de tanta falação e tão pouca ação. Que tal unir seu lado piegas à sua faceta militante? O mundo convida! E você? Vai sair do comodismo? Tem coragem de participar?

Wednesday, June 06, 2007

Moreninho, escurinho ou negro?


Está de volta à baila uma forte discussão sobre a classificação racial e o sistema de cotas para negros, em universidades públicas, no Brasil, após um fato isolado, ocorrido na Universidade de Brasília, que classificou irmãos gêmeos uni vitelinos de forma distinta, conforme divulgado em matéria de capa por uma revista de circulação nacional.
É muito claro o conceito que define a composição genética dos seres humanos. Um negro pode conter alta carga de genes europeus, bem como um branco pode ter grande presença de genes africanos e indígenas. Mas não é a composição genética o fator preponderante no direcionamento da metralhadora racista. O que motiva o preconceito, em geral, é a cor da pele. Negra!
Para citar exemplos de nosso dia a dia, basta olharmos ao redor. O leitor, que está agora em seu local de trabalho, seja ele em uma empresa privada ou em um órgão público, olhe à sua volta: Quantos negros ocupam cargos de maior expressão em seu ambiente profissional? Posso apostar que, fazendo a limpeza, o cafezinho, cuidando do jardim ou da portaria, eles são a maioria. Mas e nos postos de chefia? E em nossas salas de aula, nas escolas privadas e no ensino superior? Qual é a relação entre o número de negros e brancos? Entrem em uma agência bancária. Qualquer uma! Onde estão os negros? Geralmente, na fila do benefício social! Os estagiários, caixas, supervisores e gerentes, salvo raras exceções, têm a pele branca – ou quase.
No Brasil, o que prevalece é o preconceito velado. Dificilmente ouvimos alguém se referindo a uma pessoa como “negra”. Em uma ridícula forma de “piedade”, tentamos amenizar, dizendo: “-Aquele escurinho. Aquele moreninho”.
Temos que reconhecer que a convivência entre raças no Brasil é majoritariamente pacífica. Neste país não existe o apartheid oficial. Os pobres, sejam eles brancos, negros, vermelhos ou amarelos freqüentam o mesmo ônibus, a mesma fila do SUS, os mesmos botequins. Já nos restaurantes da moda, nas danceterias de classe média, nos shoppings e nas clínicas privadas, a realidade é outra.
A questão aqui, não é racial. É econômica! É uma questão de oportunidade histórica!
O que se pretende, com o sistema de cotas, é dar acesso imediato aos negros. Que tenhamos sua presença em ambientes acadêmicos refinados, até então exclusivos dos filhos dos brancos e dos endinheirados. E não venham me falar que o erro está na educação básica, porque isto estou – literalmente – careca de saber! É óbvio que para resolver o problema, no longo prazo, o caminho é uma revolução na qualidade do ensino, desde a infância. Mas, e para os milhões de negros excluídos, desde a abolição, desta oportunidade? O que diremos? Que o Brasil é o país do futuro? Que seus filhos e netos poderão viver uma realidade diversa da atual?
Dizer que o sistema de cotas privilegia um novo tipo de preconceito, amputando vagas por mérito acadêmico, é o mesmo que afirmar que um garoto de classe média, bem alimentado, agasalhado, estudando em uma escola renomada, está em igualdade de condições com o menino nascido no sertão do nordeste, de pés descalços, com a barriga cheia de vermes e que caminha quilômetros por dia a fim de receber aulas de uma professora semi-analfabeta.
Ora, se o sistema de cotas para negros, que não é uma medida definitiva, for considerado contrário à constituição, que prevê a igualdade entre todos, o que dizer do sistema de cotas para mulheres nas eleições proporcionais? O que dizer das cotas para deficientes no serviço público? O que pensar sobre a fila e os acentos preferenciais para gestantes e idosos? Estas e outras medidas separam, sim, as pessoas, buscando reparar distorções, tornando a sociedade mais diversa, mais igualitária, onde todos tenham oportunidades similares, respeitadas as diferenças físicas, nunca as raciais ou sociais.
Não sou contra qualquer destas ações afirmativas, que buscam, assim como o sistema de cotas para negros nas universidades, corrigir dicotomias.
É evidente que, em qualquer ação, pode haver enganos, como no caso da UNB. Mas o fato de pessoas sem caráter utilizarem idosos para “furar as filas” é motivo para extirpar o benefício que se presta a privilegiar milhões de outros idosos?
Na realidade em que vivemos, o sistema de cotas é fundamental para reparar um engano histórico, que classificava cidadãos pela cor de sua pele. Mas que ele não seja “temporário” como a CPMF. Ele deve existir por prazo determinado, aliado a políticas que remodelem o sistema de acesso, tornando-o similar para todos.

Roberto Carlos, Orkut e a invasão de privacidade.


Os noticiários da semana deram destaque à ação judicial que o cantor Roberto Carlos moveu contra o escritor Paulo César de Araújo e a Editora Planeta, pela publicação da biografia “Roberto Carlos em Detalhes” que, segundo o cantor, é “não autorizada” e “ofensiva”. Da mesma forma, tornou-se comum, no site de relacionamentos Orkut, verificarmos diversos usuários reclamando da “invasão” de suas páginas pessoais por desconhecidos, que passeiam livremente pelos milhões de perfis ali existentes. Um verdadeiro BBB, também não autorizado explicitamente...
Ora, vejamos: Quando nos tornamos públicos, quando nos cadastramos em sites de relacionamento abertos, publicando fotos e detalhes pessoais, ou ainda quando expomos nossas idéias através de artigos, colunas de opinião, programas de rádio e TV, estamos suscetíveis a este tipo de “invasão”! Por mais que incomode, a exposição pública é – normalmente - uma escolha pessoal. Isto dá ao leitor, ao espectador e ao internauta a noção – mesmo que subliminar – de que pode fazer parte da vida daqueles que se expõem; de que pode vasculhar, comentar e emitir opiniões a respeito deste ou daquele.
Se Roberto Carlos fosse um “cantorzinho de boteco”, ainda assim estaria à mercê de seu público, em escala bem inferior, é claro! Mas como ele é o “Rei”, figura internacionalmente conhecida, está ainda mais sujeito à curiosidade de seus fãs e de todos os mortais, que se acham no direito, sim, de conhecer sua biografia, seja ela autorizada ou não.
No caso do Orkut, como bem diz o internauta Johnny Sobreira Lazzaro, mineiro radicado em Colorado do Oeste-RO, que mantém um perfil no site, “Quer privacidade? Sinto muito, aqui não é o seu lugar!”. Em seu bem humorado texto, Lazzaro diz acreditar que a invasão às páginas pessoais é um recurso disponível “para nos conhecerem melhor, acharem identificações” e que os navegantes do site observam os demais usuários “da mesma forma que nos observam ao entrarmos num restaurante, clube, danceteria ou shopping...” e que não há inconveniente algum nisto. Finalizando seus comentários, ele diz: “O assunto é particular? Ligue para o celular da pessoa, ora essa! Quem quer ter segredinhos, use outros meios, que forneçam maior privacidade!”. Adorável!
A curiosidade e a vontade de participar são naturais da grande maioria das pessoas. Eu não sou fã do Big Brother, mas não posso recriminar quem se diverte com o desfile de lindos corpos, quase sempre desprovidos de massa encefálica e visão crítica, soltando jargões primorosos, do tipo, “Uhu, Nova Iguaçu!”. Não tenho um pingo de curiosidade sobre a vida do Roberto Carlos, mas nem por isto posso exigir que os fãs não queiram conhecer detalhes sobre a trajetória de seu ídolo.
Ninguém pode aceitar, é lógico, que sua imagem, sua carreira ou suas idéias sejam utilizadas de forma pejorativa, denegrindo e insultando! Não é de bom tom, utilizar uma foto pinçada no Orkut para fins escusos, ou comentar sobre a vida de alguém se escondendo por pseudônimos! De forma alguma, é possível fingir-se de paisagem, sendo atacado em sua intimidade por pessoas inescrupulosas; afinal, nem todo mundo tem sangue de barata!
De resto, o que vale, sempre, é o bom senso! Não devo entrar na casa do vizinho sem ser convidado, mas se a festa é na rua, todos são bem vindos!