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Monday, May 21, 2007

Da Navalha ao Mensalão: Paraíso da corrupção!


Desde muito cedo, aprendemos com nossos pais que “quem rouba um tostão, rouba um milhão” e que não existe gente muito honesta ou mais ou menos honesta. É honesto ou é desonesto. E ponto.
Mas parece que nossos políticos não receberam tais ensinamentos em casa ou, pior, são filhos de chocadeira, sem a menor referência de conduta; aquela que pauta a vida da grande maioria do nosso povo. Gente que trabalha 40 horas semanais, ganhando o sustento do dia a dia. Um salário mínimo. R$ 380,00. Observem bem esta cifra! Trezentos e oitenta reais! Dinheiro suado, com o qual esta gente vai sobrevivendo e sustentando a família, sem desviar um centavo sequer do caixa do patrão, sem superfaturar, sem ludibriar.
Imaginem agora o trabalhador, chegando em casa, ligando seu televisor adquirido em 24 prestações, com juros de 6,0% ao mês, ouvindo a Fátima Bernardes anunciar que milhões de reais foram desviados de obras públicas!
Operação Navalha, Sanguessugas, Mensalão, Pasta Rosa, SIVAM... Ministros, governadores, senadores, deputados, assessores, desembargadores, juízes, procuradores... Que bela camarilha!
Na vizinha Argentina, por muito menos, estaríamos nas ruas, batendo panelas, exigindo cassações! Mas em nosso país tropical, abençoado por Deus, parece que perdemos – se é que algum dia tivemos – nossa capacidade de indignação! Permanecemos deitados, eternamente, em berço esplêndido!
Não estão roubando nosso dinheiro. Estão roubando a educação de nossas crianças, as ambulâncias de nossos doentes, as estradas por onde escoa nossa produção. Estão assassinando bebês por desnutrição, velhos por falta de remédios, mulheres por ausência de acompanhamento pré-natal.
Pra não ir muito longe, sai dinheiro de Furnas para financiar deputado, enquanto muita gente não tem energia elétrica dentro de casa! Sai dinheiro de rodovias e de pontes para encher as burras desta quadrilha, enquanto corremos risco de morte para viajar entre Paraguaçu e Alfenas, entre Machado e Poços de Caldas... Sai dinheiro da construção de presídios, logo ali, enquanto centenas de famílias são ameaçadas por criminosos, que falam pelo celular, da tranqüilidade de nossa carceragem.
Que paraíso! Paraíso dos corruptos, dos bandidos, dos batedores de carteira, como diria a Heloísa Helena (Ah, que falta ela faz no Senado!). Paraíso da falta de decoro, da falta de vergonha na cara. Paraíso onde se transporta dinheiro público em malas e cuecas, às centenas de milhares, para pagar propina, à luz do dia, em gabinetes, hotéis e aeroportos – que ultimamente só servem mesmo para este fim...
Do que adianta o belo trabalho da Polícia Federal, se ninguém é rigidamente punido? Do que adiantam as boas intenções do Plano de Aceleração do Crescimento, se o dinheiro vaza, aos borbotões, pelos ralos da clandestinidade? Do que adianta o excelente desempenho do governo na economia, se não conseguimos livrar a nação do analfabetismo, da violência, da prostituição infantil, do tráfico de drogas?
Acorda Brasil! Não adianta reclamar para o William Bonner. Temos que acompanhar, cobrar, exigir. Justiça seja feita! Cadeia neles!

Wednesday, May 16, 2007

Cultura sem lar


Quantas cidades brasileiras têm uma programação cultural popular como Varginha? Pouquíssimas, podemos garantir.
Festivais de cinema, teatro, poesia, música, charges e caricaturas espalhados pelas praças; exposições de arte e artesanato no foyer Aurélia Rubião e na Estação das Artes; dança de rua, shows e capoeira na Concha Acústica; gastronomia nos bares, botecos e restaurantes; um museu que, além de um acervo fixo, conta com exposições regulares sobre imigração, raças, religiosidade, história da escrita e da moeda...
São inúmeros os eventos e os espaços dedicados à arte e à cultura e isto não ocorre por acaso. É fruto de um trabalho dedicado da classe artística local, dos educadores e do poder público. As conseqüências, são uma população interessada, que gosta de aprender e apreciar tudo o que está à sua disposição e um empresariado que apóia, com patrocínios e substituição tributária, fomentando cada dia mais estas iniciativas, que vêm para ampliar a qualidade de vida e a visão crítica do nosso povo, preservar nossa memória e enaltecer nossos talentos.
Mas não são apenas flores... Durante anos, temos acompanhado com pesar o Theatro Capitólio com suas portas fechadas, privando-nos de apreciar espetáculos teatrais e musicais que outrora eram tão comuns e tão bem vindos! Há muitos anos observamos a decadência física do Cine Rio Branco que, tombado com louvor pelo IEPHA/MG - Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais – , após uma manifestação que marcou época, sob o nome de “Movimento dos Sem Tela”, tornou-se nada mais que uma parada de ônibus e uma saudosa lembrança para milhares de cidadãos, que freqüentaram aquele magnífico espaço, aquela verdadeira “Casa de Cultura”. Mais recentemente verificamos, com satisfação, a retomada da Estação Ferroviária, abrindo suas portas para os artesãos locais, mas em condições precárias, tão decadente quanto antes, pouco instigando a curiosidade da população, que esperava um espaço revitlizado e restaurado.
Prédios que fazem parte de nossa história ou que abrigaram durante décadas a cultura, hoje encontram-se decrépitos... Um borrão na memória do mais velhos e uma interrogação na cabeça dos mais jovens.
A cultura em Varginha caminha pelas ruas. E isto é muito bom! Permite o acesso de todos à arte. Contudo, caminha mas não tem onde parar. Não tem abrigo. Não tem lar! Não tem teatro público, não tem cinema público, não tem uma galeria, um grande espaço público para receber exposições e shows em ambiente confortável!
Passa da hora de vermos a seqüência de todas as boas atitudes percebidas até então! Tarda o dia em que poderemos todos, em traje de festa ou de pés descalços, assistir uma peça teatral em um verdadeiro teatro do povo. Custa a chegar o momento em que assistiremos a exibição de um filme nacional ou de circuito alternativo em uma gigantesca tela, em uma monumental sala de cinema. Demora muito o instante em que apreciaremos obras de arte e artesanato, pinturas, desenhos e esculturas em um espaço digno da criatividade e do interesse de todos nós.
O que esperamos, cobramos e queremos – inconformados que somos -, é mais e mais espaços destinados ao aprendizado, à cultura e à diversão!
Afinal, como diria Florbela Espanca: "O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que nem eu mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessoa; sou antes um exaltado, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade… sei lá de quê!"

Fabricio Serafim, 34 anos, é economista e ativista social em Varginha-MG. Escreve às quintas-feiras no portal Varginha On Line http://www.varginhaonline.com.br/ e também no jornal Correio do Sul.

Tuesday, May 08, 2007

O PAPA QUE NÃO É POP


O PAPA QUE NÃO É POP
por Fabricio Serafim*

O Brasil recebe, esta semana, o Papa Bento XVI, cuja visita oficial terá celebrações monumentais e eventos magníficos, bem à moda da Igreja Católica e, mais recentemente, à moda das igrejas evangélicas... Pelas cidade onde Bento XVI passará, milhões de reais foram gastos em mega-estruturas, para que tudo saia a contento! Boa parte destas obras, financiadas com dinheiro público, oriundo dos bolsos de contribuintes judeus, muçulmanos, espíritas, umbandistas, evangélicos e até católicos!
A agenda de Joseph Ratzinger conta com a 5ª CELAM (Conferência do Conselho Episcopal Latino Americano), transferida às pressas do Equador para o Brasil (?); com a canonização de Frei Galvão - o primeiro santo legitimamente brasileiro - e, entre outros espetáculos, com um grande "Encontro com os Jovens", no estádio do Pacaembu.
Cabe aqui uma consideração importante sobre as entrelinhas desta visita e sobre o pensamento de Bento XVI:
- Conservador de carteirinha, Ratzinger não vem ao Brasil por acaso. Preocupado com o crescimento estrondoso de outras crenças, com as vozes cada vez mais retumbantes de setores sociais organizados em defesa do aborto, das pesquisas genéticas com células tronco, dos homossexuais e ainda com os avanços sociais observados em toda a América Latina, o Papa tem a importante missão de reforçar e reorientar a política conservadora de sua igreja, resgatando a influência do catolicismo sobre o povo brasileiro e latino-americano. Tem por objetivo interferir diretamente em políticas públicas, contra o uso de métodos contraceptivos, com foco no "pecado" que é, para o Vaticano, o uso dos preservativos.
Preocupante é a posição da Igreja de Roma contra alguns destes temas! Mas valioso é o poder de provocar discussões, que esta visita instiga!
Poucas vezes verificamos discursos tão acalorados! Para Ratzinger, baseado na "tradição cristã", o divórcio "é uma praga", os deputados mexicanos favoráveis à legalização do aborto são passíveis de excomunhão, os povos da amazônia devem ser catequisados, os relacionamentos afetivos entre pessoas do mesmo sexo é algo "intrinsecamente mau", o sexo deve ser feito somente para reprodução e as pesquisas com células tronco são pura e simplesmente "assassinatos". Já para a sociedade organizada, diversas são as razões para debater contrariamente! O divórcio é algo consolidado, como direito de escolha. O aborto deve ser uma opção da mãe, soberana sobre seu corpo e sua consciência. A população amazônica tem o direito de escolher a que deus pretende seguir. Os homossexuais provam, dia após dia, a normalidade de seus relacionamentos. Se pratica sexo por prazer! E isto faz bem à saúde, tanto quanto faz bem usar camisinha, como forma de prevenção à gravidez indesejada e às doenças sexualmente transmissíveis. E a pesquisa com células tronco? Isto é ciência, é evolução!
É a discussão entre "o bem e o mal"! Entre pensadores de vanguarda, representando uma expressiva parte da população ao sul do mapa mundi e o "Papa que não é pop", representando dois milênios de tradição cristã, genocídio de povos indígenas, silêncio sobre o holocausto, fogueira às bruxas e um incontável número de outras "banalidades"...

*Fabricio Serafim, 34 anos, economista e ativista de movimentos sociais em Varginha-MG.